Em 2012, o Notas Futebolísticas dá continuidade a série apresentando personagens míticos e importantes para a história do esporte nacional. Perácio teve em sua trajetória peripécias dignas de serem relembradas. O texto é de Maurício Targino.
Estádio de São Januário, 22 de janeiro de 1939. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Brasil e Argentina se enfrentavam pela Copa Roca. O jogo está empatado em 2 a 2 e o árbitro (brasileiro) Carlos de Oliveira Monteiro, vulgo Tijolo, marca pênalti a favor do Brasil.
Claro que ia dar confusão. E deu. Os hermanos partiram para cima do árbitro e a polícia agiu, previsivelmente, na base da porrada, obrigando os argentinos a ir para os vestiários.
A partida não foi encerrada e o pênalti foi mantido. Perácio foi para a cobrança, não sem antes ouvir a recomendação do técnico Carlito Rocha, aquele mesmo que mais tarde ficaria conhecido como o folclórico presidente do Botafogo, pedindo que cobrasse bem no cantinho.
“Mas Seo Carlito, o gol está vazio.”
“Não interessa, chuta no cantinho.”
Ao se preparar para a cobrança, Perácio ouve a torcida berrar:
“Devagar, Perácio, e no meio”.
Perácio cobrou tão devagar que quase teve que correr e soprar para que a bola passasse a linha fatal.
Um “causo” desses já colocaria José Perácio em qualquer antologia de jogadores folclóricos. Ainda mais por ele, um ano antes, ter quebrado o braço do goleiro Planicka da Tchecoslováquia com um chute.
Não, Perácio não era um precursor de Almir Pernambuquinho ou Serginho Chulapa. É que nas quartas-de-final da Copa de 1938, Perácio acertou um petardo, que Planicka, ao tentar defender, chocou-se com a trave, quebrando o braço e a clavícula.
E tem ainda mais histórias envolvendo Perácio. Na viagem da delegação brasileira que disputaria a Copa de 1938, Perácio passava horas no convés com um binóculo. Queria ver a linha do Equador bem de pertinho.
Perácio também tinha o estranho hábito de estacionar seu carro, um Packard, próximo ao estádio e ligar o rádio no volume máximo para poder ouvir o locutor gritar “gol de Perácio”. Só que além de à época os rádios de automóveis não serem tão potentes, ele também fechava os vidros. Ou seja, tudo o que Perácio conseguia era que a bateria do Packard arriasse.
“Causos” à parte, José Perácio Berjun foi um dos maiores jogadores brasileiros da época de transição do amadorismo para o profissionalismo. Nascido em 02 de novembro de 1917, em Nova Lima, Minas Gerais, Perácio começou a carreira em 1932, no Villa Nova, com apenas quinze anos. No ano seguinte, foi campeão mineiro, feito repetido em 1934 e 1935. Jogou mais um ano no clube mineiro até se transferir em 1937 para o Botafogo, clube do seu coração, onde jogou até 1940 e se tornou um dos maiores ídolos da história do alvinegro carioca.
Como vários ídolos da história do Botafogo, como por exemplo Heleno de Freitas, Perácio não conquistou títulos pelo clube da estrela solitária. Mas jogou sua única Copa do Mundo (1938, onde marcou dois gols no eletrizante 6×5 na estréia contra a Polônia e mais um nos 4×2 contra a Suécia, na decisão de terceiro lugar) como jogador do Botafogo.
Em 1941, transferiu-se para o rival Flamengo e conquistou o tricampeonato carioca de 1942-43-44. E como torcedor botafoguense adora uma coincidência (de preferência trágica), a situação é um tanto parecida com Heleno, que foi tetra vice-carioca de 1944 a 1947 com o Botafogo, foi para o Boca Juniors em 1948 e o Bota foi campeão. Heleno voltou ao Rio em 1949 e foi campeão carioca. Pelo Vasco.
Em 1944, Perácio lutou na Segunda Guerra Mundial, pela Força Expedicionária Brasileira (FEB). Com o fim da guerra, voltou ao Flamengo, onde ficou até 1949, quando se transferiu para o modesto Canto do Rio, jogando as temporadas de 1950 e 1951, quando encerrou a carreira.
Numa época em que os meio-campistas não jogavam em velocidade e pouco encostavam no ataque (já que se jogava com quatro ou cinco atacantes), Perácio, meia-esquerda, se destacou por marcar muitos gols. João Saldanha explica:
“É que ele representa uma nova etapa do futebol: a do profissionalismo, onde o jogador não é apenas um futebolista na acepção da palavra, mas um futebolista e atleta, formado em toda a extensão.”
Perácio morreu na capital carioca em 10 de março de 1977, aos 59 anos. Mesmo sendo veloz e dono de um fôlego invejável em sua época de jogador, Perácio era fumante inveterado. E um cigarro rendeu a sua melhor e mais conhecida história: Perácio pára seu Packard no posto de gasolina. Junto a ele, está Martim Silveira, companheiro de Botafogo. Enquanto o carro é abastecido, Perácio, ao lado da bomba, acende um cigarro. Martim se desespera e pede que Perácio, pelo amor de Deus, apague o cigarro. A resposta, ingênua, se tornou nada menos que uma das maiores tiradas da história da humanidade:
“Desculpa Martim, não sabia que você era supersticioso.”
Por Maurício Targino